domingo, 26 de julho de 2015

Alice



Alice,
Acordei no teu mundo,
Subitamente!
Não tive escolha:
Atiraram-me!
A toca do coelho branco parece infindo...
As cores somem no infinito,
Na morte, no carvão...
Bati a cabeça, desmaiei.
Deixei-me morrer e fui
Reduzida a pó! 
Não, Alice, Não estava escrito que adentraria teu mundo,
Nem que das cinzas renasceria.
Aconteceu, Alice!
Em Wonderland posso me desvencilhar das correntes,
Da prisão da vida...
Posso ser Eu!
Posso até ser você - O sonho é meu!
Não se preocupe, quero-a ao meu lado.
Dividiremos as maravilhas desta terra,
Fundiremos nossas insanidades e,
Juntas, seremos insuperáveis
Invencíveis...
Eu não tenho escolha, Alice!
Você também não teve...
Ambas arremessadas nas próprias covas,
Lançadas em nosso pior pesadelo:
Sim, compartilhamos o mesmo demônio,
Carregamos o mesmo peso,
o mesmo desvario...
Nascemos com uma falha incorrigível,
Inaceitável:
Enxergamos além da loucura.
Lamento, mas insanidade não tem cura!
Trancafiaram-te naquele hospício,
Doparam-te!
Levaram-te à morte...
Nascemos em épocas distintas, minha querida Alice,
Mas a sociedade continua estagnada,
Anda a nos apontar o dedo da hipocrisia.
Nos espreita para nos condenar!
Vivo em perpétua prisão - tanto quanto você,
Minha Inocente Alice...
Vim para te dizer que é preferível, sim, estar aqui!
Acredite em mim - teu reflexo!
Não queremos voltar para uma vida alucinógena.
Então, Matemos o coelho branco!
O sonho é nosso:
CORTEM-LHE A CABEÇA!
E não teremos mais o seu maldito relógio,
Não teremos o despertador, a lembrança de que é preciso voltar!
Estaremos, enfim, libertas!
Seremos duas...
Apenas nós duas, minha eterna louquinha...
Alice, será que estou ficando pior?
Sim, sua resposta é previsível:
Meu estado é grave! Perdi tudo, principalmente, a razão!
Mas as melhores pessoas do mundo são assim,
Não são?
Numa coisa serei imprevisível,
Preciso te contar um segredo:
Nada é apenas um sonho, Alice...
Vem sem medo, não soltarei tua mão!
Vem para mim...
Meu Alicerce - Minha eterna Alice...

(Renata Nunes)


sábado, 25 de julho de 2015

Terapia das 24 horas

Somente por hoje espero poder desacelerar a mente,
Deixá-la anestesiada, entorpecida,
Dormente.
Difícil é frear pensamentos: mil por milésimo de segundo!
Às vezes é preciso me abandonar,
Me desocupar,
Fazer de mim um deserto e sair!
Fugir dessa louca mente...

Somente por hoje espero não desistir de mim;
Espero lembrar que alguns sintomas passam
E eles não me levarão à morte precoce:
Aceleração cardíaca, tremores, dormência, confusão, pensamento rápido,
Estranhamento de Ser e Estar num mundo onde a morte me sonda...
Dentre tantas fobias e medos, o pior:
O Medo de morrer ou sobreviver para enlouquecer...

Somente por mais 24 horas...
Que eu seja a pessoa mais importante da minha vida,
Que, esta, seja vivida no hoje!
Que o passado esteja embaçado para que não o veja...
Quando enclausurada no passado,
A culpa me tortura, martiriza...
A depressão me entreva, me deixa muda.
Que o futuro nem exista!
Não posso me dar ao luxo de pensar em amanhã!
Amanhã pode nem existir
Ou pode ser tarde demais pois não poderei voltar atrás!
Quando o futuro habito,
Vivo a ânsia do desconhecido,
A angústia da ignorância,
Sinto o desconforto, o enjoo, a agonia
Do pânico e todas as minhas fobias...

24 horas...
Parece tão pouco, não é?
Para mim, é uma eternidade...
Então, eu suplico:
Somente por hoje quero e preciso sentir paz!
Sim, sou dependente!
Dependente de tudo o que é deprimente;
Da dor cósmica, da alma latejante,
Da melancolia que me torna inoperante,
Até da má sorte!
Mas, alguns dias, consigo lidar com meus próprios demônios,
E, nesses dias, vivo um "Eu" diferente.
Meu "não-eu" também é persistente!
Resiste às minhas quedas
E levanta os olhos para o bem que ainda há na terra.
No final de dias como esse,
A insônia sente o efeito da tarja preta,
Consigo adormecer e sonhar.
Depois, só preciso encarar mais 24 horas...
A luta é árdua!
É injusta: é contra uma parte soberana de mim!
É longa: não há trégua por um minuto sequer!
Mas é válida quando ainda se tem um motivo para sobreviver...
Sim, eu ainda sinto o querer estar em mim,
Ainda sinto...
E, sinto muito, mas preciso entardecer,
Pôr meu "sol negro" para dormir,
Por isso, preciso ir!

Que hoje eu consiga viver meu dia,
Minhas longas e exaustivas 24 horas...
E, que, esgotada, adormeça entorpecida,
Esquecida:
Das próximas e eternas 24 horas da minha vida!


(Renata Nunes)




sexta-feira, 24 de julho de 2015

O Simbolismo da Morte



A presença do símbolo na poética de Antero de Quental e Augusto dos Anjos é muito importante pois este seria o caminho encontrado por eles para exteriorizar seus mundos interiores, se não fielmente, ao menos os vestígios refletidos das suas impressões.
Segundo Massaud Moisés, o símbolo é: “... O esforço de apreensão do impalpável, o símbolo funciona como múltiplo e fugidio sinal luminoso de uma complexa realidade espiritual...” (MOISÉS, p.210). Desta forma, em outro plano de consciência, no plano do inconsciente (dos sonhos, com um afastamento do que seria “racional”) existe uma realidade espiritual encontrada pelos poetas no espaço do desconhecido, do infinito, do impalpável; reafirmando o que diz Jean Chevalier à respeito da utilização dos símbolos.
É ainda em Chevalier que a morte representa o negativismo por ser o fim de tudo quanto é positivo e belo (a vida em todos os sentidos e tudo que a compõe – todos os seres); e a representação simbólica da morte seria a parte da existência em deterioração, ou seja, é a vida que se destrói (agindo como o “sol negro”) levando um indivíduo ao mundo do mistério (paraíso e inferno). Vendo sob este aspecto, a morte introduziria o indivíduo a uma nova realidade como numa iniciação; não deixando de ser contraditório já que o fim acaba sendo um começo, sabe-se que em toda iniciação, a presença da morte é necessária para que se tenha um novo começo (a sensação de morte deve ser sentida ou verdadeiramente realizada), uma nova vida sendo, talvez, uma oportunidade de regeneração, assim, a morte não seria o fim de tudo mas um recomeço para a vida espiritual – considerada a verdadeira existência.
Longe de se desvencilhar das névoas de mistério que a envolvem, a morte é sentida com angústia e medo em razão do apavoramento que o desconhecido causa a qualquer ser humano e pela imensidão do nada que nos espera e que a tudo dissipa inteiramente.
No mundo em que vivemos e em todos os tempos, não há quem não tenha pensado acerca da morte e muitos foram os que já tentaram decifrar os seus mistérios tanto quanto tirar o véu que encobre o “depois”, cada indivíduo, a sua maneira, a entende e a vê de modo único. Nossa tentativa aqui é a compreensão simbólica da morte na construção da poética de Antero de Quental e Augusto dos Anjos (como eles a veem, como a sentem, porque a utilizam e o que esperam quando a registram em seus poemas), não nos compete, portanto, tentar “dissecá-la” (em seus vários pontos de vista, seja popular, médico, filosófico ou psicológico) ou muito menos conceituá-la tendo em vista a sua tamanha complexidade e por seus conceitos mudarem não podendo ser considerados, portanto, definitivos.
Os poetas em questão encontravam na morte uma libertação, um repouso e a viam como um consolo e, talvez, como um preenchimento do vazio decorrente da perda sofrida (ou adentrariam num vazio ainda maior). Perda que se destrincha em muitas (algumas com rosto, outra (s) sem e esta seria a maior, a desconhecida, a sem motivo ou causa), consideradas as causas do estado melancólico. A melancolia é a chave para o entendimento da morte nestes dois poetas e, como já foi comentada em capítulos anteriores, buscaremos não nos adentrar muito nesta questão. Foi dito que a escrita, o ato criador, era uma tentativa de amenizar esta dor e angústia decorrente da perda, no entanto, a morte seria a última saída para seus eternos conflitos, ela seria a derradeira separação entre eles e o mundo significando o momento de desligamento, desprendimento da matéria e, por consequência, de tudo o que a compõe no âmbito terreno (social, político, cultural, religioso) já que a morte seria o fim da vida e, portanto, do sentimento, do pensamento e da ação. Porque a morte? Por que o sentido da vida não mais existe, por que há o desejo de escapar a tudo que os desagrada no mundo, por que não há mais nada que a vida possa lhes oferecer e, talvez, seu ganho simbólico através da morte seja mais importante que tudo isso; ou ainda por que o prospecto da morte causa um abalo em nossa visão de futuridade visto que ela significaria o fim do nosso tempo pessoal (segundo Robert Kastenbaum).
A melancolia impulsiona o individuo à morte orgânica, no entanto, esta o sonda durante toda a sua existência e está presente em todo o campo de visão que alcança; isto é possível quando acontece de dentro para fora, ou seja, vem do individual para o coletivo, ou ainda, em se tratando de construção poética, do “eu-lírico” para a escrita (não deixando de ser também consequência do externo sob o interno – torna-se um ciclo, muitas vezes, vicioso). A morte faz parte do mais profundo “eu” do poeta e é refletido em suas poesias já que estas são a exteriorização de seus interiores. Ela é tão insanável quanto a dor que os afligem e tão presente e real quanto a própria vida. Para os destacados poetas, a morte de seus ideais, a morte dos motivos que os impulsionavam a viver representam o início de uma caminhada direcionada para a morte pois, neste momento, o sentimento de cansaço e de perda os deixam entregues sendo isto, implicitamente, uma permissão para que a morte ocorra de alguma forma. É também uma busca pela unidade perdida entre o “eu” e a natureza.

Segundo Chico Viana, o melancólico procura ultrapassar o vazio da coisa perdida, então, o desejo de destruição seria um impulso alternativo de recomeço. O “eu-lírico” sonha em ver surgir outro mundo, outro homem, outro cosmo (possibilidade de renovação do homem). Uma coisa é certa: a morte, seja ou não vista como símbolo, é presença constante na vida de Antero de Quental e Augusto dos Anjos e está representada no imenso e frequente vazio sentido e relatado em seus poemas; este vazio é um nada ligado à dimensão espiritual (já explicitada no início deste capítulo) da morte e é o símbolo fundamental da melancolia.

(Renata Nunes - Melancolia e Morte na poesia de Antero de Quental e Augusto dos Anjos).

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Wonderland - Minhas insanas Maravilhas.

Espera!
Preciso seguir o coelho,
Ele corre, tem pressa,
Anda atrasado para algo importante.
Rápido!
Rápido!

A toca do coelho...
Minha frenética passagem para o sub mundo...

Estou caindo.
O buraco é fundo, negro.
E tudo o que vejo está ao avesso,
Desavesso do que é estranho.
A queda dói mas reconstrói,
E, assim, o impossível acontece!

Onde está o coelho branco?

Onde estou?

E os gêmeos? Uma louca dualidade!
Depressa, é Hora do chá!
Muito inglês para a minha realidade!
Prefiro café, Vrááá!
Mas o "chá" revelou uma data comemorativa mágica, nova:
Meu des-aniversário!
Comemorar todos os dias...
Ah, meu excêntrico Chapeleiro,
Meu melhor amigo,
Se todas as pessoas fossem iguais a você
O mundo seria mais belo, criativo e sincero.
Seria melhor - Bipolar!
Maluco... Maluquinho!
Já te falei que as melhores pessoas são assim?

Mas é preciso ter pressa!
Sabe-se lá para quê!
Tempo, tempo, tempo...
Que coelho doido!

Tantas perguntas sem respostas:
Quem és tu?
Eu? Não sei, minha lisérgica lagarta azul...
Continua fumando teu narguilé sobre teu cogumelo.
Eu tenho pressa.
Feliz des-aniversário para você!
Para mim, também!
Que coincidência, não acha?

Ando confusa...
Um gato anda a me desorientar...
Pensando bem, para quem não tem noção de onde ir,
Qualquer caminho há de servir!
Escolhendo este: COMA-ME!
Optando pelo outro: BEBA-ME!
Não existe saída,
É alucinante!
Num mundo de loucos, há que ser louco, você há de convir!

E o coelho?
Fugindo de quê? De quem?
Realidade?
Faz-me lembrar: há tempo para acordar!
Nunca o encontrarei...
Ele me leva ao portal...
Seu relógio - rígido e exigente - chega a ser mortal.
É preciso morrer para despertar...

Oh, minha tirana rainha de copas!
Sim, ordena pintar todas as rosas,
Que fiquem Vermelhas...
Manda tingir de sangue!
Ser contrária à ingenuidade do branco,
do coelho...

O coelho!
Até quando ele acha que consegue?
Viver apressadamente,
Ensandecidamente!
Ando cansada,
Dormente...
Não consigo mais pensar!
Por isso, imploro,
Aponta-me o dedo soberano, rapidamente,
Faz-te ouvir e grita incessantemente:

CORTEM-LHE A CABEÇA!


(Renata Nunes)








terça-feira, 21 de julho de 2015

A poética da Melancolia.


Ao invés de reprimir as consequências da perda do objeto, o melancólico aloja o objeto ou coisa perdida em seu interior juntamente com os aspectos benéficos e maléficos trazidos pelo mesmo; a poesia é o reflexo da expressão da união do eu ao objeto perdido, de modo que, o poema, é a voz de um não-eu: fragmentação que é resultado da identidade perdida (transformando-se em várias identidades pela dispersão do “eu”).
Ser melancólico é ser deserdado de algo não material e sem nome que não foi transmitido ou herdado e não é, portanto, transmissível. Esse algo está além e mais profundo que o “objeto” e guarda nossos mais secretos e profundos desejos e amores.
Como deserdado, o melancólico é um ser desafortunado e infeliz pela distância que o impede de reconquistar o “paraíso perdido”. “Entre o gozo que aspiro, e o sofrimento / De minha mocidade, experimento / O mais profundo e abalador atrito... / Queimam-me o peito cáusticos de fogo / Esta ânsia de absoluto desafogo / Abrange todo o círculo infinito. / Na insanidade desse gozo falho / Busco no desespero do trabalho, / Sem um domingo ao menos de repouso, / Fazer parar a máquina do instinto, / Mas, quanto mais me desespero, sinto / A insaciabilidade desse gozo!” (ANJOS, p.199). Por ser definitivamente perdido, este “paraíso” (fonte de desejo e amor) se torna mais distante do indivíduo de modo que este, sabendo-se numa situação sem volta (irremediável), tenta buscar um meio de dominar a dor e o infortúnio e de preencher o nada, o vazio de um espírito cansado de tanta luta percebido também neste soneto de Antero de Quental no qual a busca pela sorte (bons tempos) é vivida até a exaustão numa luta repleta de “ais” pelo deserdado, no entanto, ao encontrar o procurado consolo ou ao adentrar no palácio da ventura, sua dor é aumentada por deparar-se apenas com o silêncio, a escuridão e o vazio:

O Palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante,
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!

O poeta, ao mesmo tempo que depende deste “algo”, encontra enigmaticamente um meio de estar em outro “lugar”. Escrevendo, o poeta domina este infortúnio e, dominando-o, transforma-se / divide-se em “eus” que o permitem dominar os dois lados (real / imaginário). Um desses “eus” (o “não-eu”) é o que se manifesta no jogo da escrita. Então, se é um “não-eu” que se manifesta na ficção, o poeta, ao adentrar nesse mundo fictício (atividade simbólica), encontra-se ainda mais distante da “coisa”, desse algo perdido numa realidade distante (passado real). O poeta vai para outro mundo que é oposto ao real (ainda que seja para expressar uma realidade).

A voz do melancólico é a voz de alguém inconsolado, inconsolável... O resultado desta falta de consolo no passado (passado melancólico que não passa) é o presente atormentado pela frustração passada, sendo esta insanável.

(Renata Nunes - Melancolia e Morte na poesia de Antero de Quental e Augusto dos Anjos

Re-Nato.

Cheguei ao mundo de forma natural.
Um parto!
Literalmente, Normal.
Chorei.
Parabéns, mamãe, sou uma menina!
Chorei...
Sufoquei o grito de quem quer voltar,
Retroceder,
Não nascer, renascer,
Não Ser:
Re-Nata.
Trouxe uma bagagem pesada...
Alma angustiada por assombrações passadas,
Carregada de infortúnios - 
Mal do meu século!
Assim, cheguei a um planeta chamado Terra.
Fui arremessada para esta guerra!
Teria, eu, outra alternativa, senão, chorar?
Chorei!
Mas ninguém parecia ouvir minha lamúria.
Uma lástima!
Desventura...
Para não dizer: Tortura!
A falta de paciência me leva à loucura...
Te adianta e fala!
Faz logo as perguntas que desejas.
Anda, despeja! Tenho pressa!
Aviso, a resposta, muitas vezes, cala...
Mas não se acovarde,
Ainda estou aqui
E a dor arde,
Teima,
Me queima!
Agora calas, ser terreno?

Por mal, deixarei minhas respostas de herança:

Meu corpo? Meu Cárcere!
Meu mal? Teu Universo!
Sim, só teu, porque eu não sou deste mundo!
E também já nem sei quem sou.
Sequer sei exato em que estação estou!
Vivo à margem da dualidade, da desestabilidade.
Confesso:
É de enlouquecer!
Isso, enlouqueci...
Nem quero esta tua terra!
Cambaleio entorpecida,
Desabo embevecida
Em Êxtase,
Em Transe...
Isso, sim, para mim, é viver!
Sim, Vivo minha loucura...
Exato, prefiro-a
 à enxergar essa lucidez que te amargura,
a cegar diante desse amar que sangra,
ao ver-te, no fim!

Últimas palavras?
Um abuso! Que seja breve,
Só não prometo ser leve:

Perdoa, mamãe, por ter afogado meu gêmeo!
Teu útero não tinha espaço para dois corpos.
Ele se foi e me roubou o órgão,
Castrou-me!
Apropriou-se do meu sexo.
Confesso, pensei ter exterminado
Meu lindo e demoníaco ser idêntico.
Mas não pude executá-lo,
Não por completo...
Sacrifiquei seu corpo já condenado, afinal,
Para quê sofrer por ser autêntico?
Salvei uma criança da ignorância alheia.
Pensei fazer um bem a quem me fez Mulher!
Meu término deprimente...
E, agora, seu espírito anda a me espreitar.
Tua criança, mamãe! Teu menino
Ronda sem destino,
Numa rotina para me derrotar.
Quer meu corpo!
Ele, agora, quer Ser também.
Quem mandou, mamãe? Uma gravidez gemelar!
É lógico:
Não consigo me libertar!
Muitas vezes, sou mais ele do que eu!
Somos dois!
E não possuo seu corpo,
Porém, Ele tem o meu!
Este é o meu castigo, meu eterno tormento:
A presença do outro - inseparável parte de mim.
O bebê que não teve a oportunidade de nascer, crescer...
O menino poderia ter sido Homem uma vez sequer!
Devia ter me devorado,
Teria, dessa forma, me poupado
Desta vida inorgânica de tudo o que há na Terra!

(Renata Nunes)




segunda-feira, 20 de julho de 2015

O discurso melancólico em Antero de Quental e Augusto dos Anjos


Como no Romantismo, Augusto e Antero sofrem a perda de suas referências quando se trata da perda de algo (objeto) idealizado, “por isto, perdendo o sentido da vida, esta se perde sem dificuldade: sentido desfeito, vida em perigo.” (KRISTEVA, Julia. P.13). “Nada! O fundo do poço, úmido e morno / Um muro de silêncio e treva em torno / E ao longe os passos sepulcrais da Morte.” (QUENTAL, p.84). “É a Morte – esta carnívora assanhada – / Serpente má de língua envenenada / Que tudo que acha no caminho, come...” (ANJOS, p.108).
Não havendo mais um sentido para continuar vivendo e lutando, a vida se perde no nada (morte inorgânica) e caminha para a morte (orgânica).
Freud compara a melancolia ao luto, assim, essa perda pode ser compreendida com maior clareza; enquanto o luto está relacionado à morte orgânica, a melancolia está ligada à morte de ideais (enquanto objeto de amor, de desejo, de luta). Vê-se a morte de alguns ideais em O lamento das coisas de Augusto dos Anjos e Transcendentalismo de Antero de Quental que trazem a dor pela não concretização das ideias, ou seja, tudo é resumido ao nada, à transcendência que não se realiza, à luz que não virou lampejo, às coisas ficarem exatamente como estão e ao desejo dos poetas não realizáveis no mundo orgânico já que tanta luta (de Antero e Augusto enquanto indivíduos conscientes da necessidade de uma atuação ou participação para a mudança de determinada realidade – seja social, política ou cultural) foi por causa de uma ilusão:



Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!

É a dor da Força desaproveitada
- O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!

É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que não se realiza...
Da luz que não chegou a ser lampejo...

E é em suma, o subconsciente ai formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!



Já sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Caí na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrário do templo da Ilusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma matéria bruta...

Não é no vasto mundo – por imenso
Que ele pareça à nossa mocidade –
Que a alma sacia o seu desejo intenso...

Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, vácuo, soledade,
Voa e paira o espírito impassível!



Ao contrário do luto, em que se sabe do objeto “perdido”, o melancólico não percebe com clareza essa perda, sente-a é fato, mas como algo vago, distante e obscuro como seu espírito.
A “coisa” perdida, que não é claramente percebida é como o sol que, longe de ser visto como realmente é, tem-se antes a percepção de sua luz (sentimos sua presença e sabemos que existe). Nerval (em Júlia Kristeva) diz que a “coisa” é um sol sonhado, ao mesmo tempo claro e negro. Contudo, entende-se que, para o melancólico, esse sol (fonte de energia, que gera a vida e a mantêm) que já foi claro um dia por ser presente, torna-se negro por haver sido perdido. O melancólico tem uma união forte com o mundo da sombra, com o lado negro do sol e do desespero.
Tendo sido gerada a partir de traumas (“objeto” de amor indispensável que se perde), a melancolia gera uma mágoa e, por consequência, ódio pela coisa perdida. O melancólico, ao se sentir abandonado ou traído, se coloca na posição de vítima e, por não saber perder, perde a si mesmo. Ao odiar o objeto amado (que está instalado dentro de si), o indivíduo se odeia e se culpa pela mágoa e ódio existentes em seu ser, portanto, encontra como única saída a morte – mágoa e ódio que são facilmente encontrados em Augusto e Antero, como nesses trechos: “O homem por sobre quem caiu a praga / Da tristeza do Mundo, o homem que é triste / Para todos os séculos existe / E nunca mais o seu pesar se apaga! / Não crê em nada, pois, nada há que traga / Consolo à Mágoa, a que só ele assiste. / Quer resistir, e quanto mais resiste / Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.” (ANJOS, p.112). “Eu vi o Amor – mas nos seus olhos baços / Nada sorria já: só o fixo e lento / Morava agora ali um pensamento / De dor sem trégua e de íntimos cansaços... Soluço de ódio e raiva impenitentes... / E do fantasma as lágrimas ardentes / Caíam lentamente sobre o mundo!” (QUENTAL, p.81).
Então, o indivíduo em estado melancólico (ao perder as referências e a si mesmo), entra num processo de auto destruição que começa com a diminuição de sua auto-estima, gerando um empobrecimento do superego em grande escala (que é a característica mais marcante na melancolia, segundo Freud, por motivos de ordem moral). A ausência de amor-próprio aliada à culpa sentida pelo melancólico (pela ligação existente entre o vazio decorrente da perda do objeto e a exacerbação da consciência moral) é que o faz preferir a morte.

Importa-nos também, ressaltar, a partir da nostalgia da coisa perdida, a tarefa ao mesmo tempo arqueológica e prospectiva que se põe ao melancólico, em sua busca de um preenchimento e de um sentido. O sentimento de culpa e a pulsão de morte, que a melancolia privilegiadamente articula, desempenham uma função importante nessa busca: o primeiro, por refletir as renúncias que, ao longo do tempo, se impuseram ao homem por efeito da civilização – a genealogia da culpa nos reenvia ao problema das origens. E a pulsão de morte, por atuar como crítica rigorosa, sugerindo vias alternativas ao cansaço, à velhice, à mesmidade. (VIANA, Chico. P.38).


A chave clínica da melancolia está na identificação do ego como objeto perdido, ou seja, se o indivíduo tem consciência de que o objeto perdido é o seu próprio “eu”, talvez ele consiga sentir que é capaz de lutar. Só depende dele mesmo pois essa batalha é contra ele mesmo (do “eu” contra um “não-eu”). Conhecendo-se e reconhecendo-se diante de um espelho imaginário, talvez se veja capaz de alcançar-se e recuperar-se (talvez não, pois o que estará refletido pode não ser o que se espera ou o que se quer ver, então, essa pode ser, também, uma causa para o abandono definitivo do “eu”). Esse caminho pode ser um recuo para a vida (cura) ou um passo a mais para a morte.

(Renata Nunes - Melancolia e Morte na poesia de Antero de Quental e Augusto dos Anjos).