quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Monólogo.


Monólogo.

Quem és tu, sombra maléfica a se agarrar em minha própria sombra? Se viestes para ficar, avisa-me, que antecedo a dor momentaneamente sufocada e me declaro vencida. Por que não me encaras? Acaso tens medo do meu próprio medo? Acaso sou eu o teu algoz? Vem! Junta-te aos meus inimigos e alista-te, então, à guerra! Ou, desfalece-te pelo ar – sutil e sedutora – como os desenhos elaborados tão distraidamente da fumaça dos meus tragos – meu único crime! Acaso pensas apunhalar-me em segredo? Não, não o faça sem medo... A dor da punhalada não será menor que a da dor gerida no cosmo – dor cósmica... Pensas me devastar? Posso te matar na tua morte, ser a tua má sorte, ser o gênio forte... Ah, agora percebes a firme aliança? Precisas de eterna companhia... Sapiência da solidão na qual te consomes? Vai, veste tua melhor lembrança, enche tua mala de gélidas esperanças e vai... Vai porque sei que estarás sempre entre a dor e a morte, vai que na rotina na qual me apercebo – como uma fixa e voluntária rota – eu estarei a te esperar... Aguardarei a tua constante volta... Ah, melancolia, consola este ser que te invoca, embala quem já não se importa – Vida ou Morte? Torta...

(Renata Nunes)

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