Monólogo.
Quem és tu, sombra maléfica a se
agarrar em minha própria sombra? Se viestes para ficar, avisa-me, que antecedo
a dor momentaneamente sufocada e me declaro vencida. Por que não me encaras?
Acaso tens medo do meu próprio medo? Acaso sou eu o teu algoz? Vem! Junta-te
aos meus inimigos e alista-te, então, à guerra! Ou, desfalece-te pelo ar –
sutil e sedutora – como os desenhos elaborados tão distraidamente da fumaça dos
meus tragos – meu único crime! Acaso pensas apunhalar-me em segredo? Não, não o
faça sem medo... A dor da punhalada não será menor que a da dor gerida no cosmo
– dor cósmica... Pensas me devastar? Posso te matar na tua morte, ser a tua má
sorte, ser o gênio forte... Ah, agora percebes a firme aliança? Precisas de
eterna companhia... Sapiência da solidão na qual te consomes? Vai, veste tua
melhor lembrança, enche tua mala de gélidas esperanças e vai... Vai porque sei
que estarás sempre entre a dor e a morte, vai que na rotina na qual me apercebo
– como uma fixa e voluntária rota – eu estarei a te esperar... Aguardarei a tua
constante volta... Ah, melancolia, consola este ser que te invoca, embala quem
já não se importa – Vida ou Morte? Torta...
(Renata Nunes)
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